Transtorno Bipolar: por que meu humor muda tanto sem motivo aparente?
Muitas pessoas chegam até mim dizendo algo muito parecido com isso: “Bárbara, eu acordo bem, produtiva, animada. Algumas horas depois, tudo pesa. E em outros momentos acontece o contrário. Parece que meu humor muda do nada.”
Quando essas oscilações começam a se repetir, a dúvida aparece. Será que é estresse? Será que é personalidade? Será que tem algo errado comigo?
Essa pergunta não surge por acaso. Ela costuma nascer depois de conflitos, arrependimentos, decisões impulsivas ou períodos de exaustão emocional. E quando falamos de transtorno bipolar, essa sensação de mudança “sem motivo” costuma ser uma das que mais confundem e angustiam quem vive isso.
Quero te explicar esse tema com cuidado, sem rótulos, sem promessas fáceis e sem transformar sofrimento em definição de identidade.
Quando o humor muda e não parece fazer sentido
Todos nós temos variações de humor. Isso faz parte da vida. Um dia mais cansativo, uma frustração, uma noite mal dormida. O problema começa quando essas mudanças passam a ser intensas, frequentes e interferem na forma como a pessoa se relaciona, trabalha, dorme e toma decisões.
No transtorno bipolar, o humor não oscila apenas em resposta ao que acontece fora. Ele oscila também por processos internos que fogem ao controle consciente da pessoa.
Por isso, muitas vezes, quem vive essas mudanças escuta comentários como:
- “Mas estava tudo bem ontem.”
- “Não aconteceu nada para você ficar assim.”
- “Isso é falta de controle emocional.”
E isso dói. Porque quem está dentro da experiência sente que algo realmente muda, mesmo sem um evento claro explicando.
O que é o transtorno bipolar, afinal?
O transtorno bipolar é um transtorno do humor caracterizado por oscilações entre polos diferentes de funcionamento emocional e comportamental.
De forma simplificada, esses polos envolvem:
- momentos de maior ativação do humor e da energia
- momentos de rebaixamento do humor e da energia
Essas fases não aparecem da mesma forma em todas as pessoas. Nem todo mundo passa pelos extremos mais conhecidos. Algumas oscilações são mais sutis, outras mais intensas, outras ainda confundidas com traços de personalidade.
E aqui é importante reforçar algo essencial. Nenhum sintoma isolado define um diagnóstico. Não é um dia de euforia. Não é uma semana de tristeza. O que importa é o padrão, a repetição e o impacto na vida.
Quando a ativação não é apenas estar bem
Um dos pontos mais mal compreendidos do transtorno bipolar é a fase de ativação, muitas vezes chamada de mania ou hipomania.
Nem sempre ela aparece como alegria intensa. Em muitas pessoas, ela surge como irritabilidade, impaciência, aceleração interna e uma sensação de que a mente não desliga.
Alguns sinais comuns dessa fase, quando fogem do padrão habitual da pessoa, podem incluir:
- pensamento acelerado
- fala mais rápida ou excessiva
- diminuição da necessidade de sono
- impulsividade em decisões, gastos ou comportamentos
- sensação de confiança exagerada ou urgência constante
- dificuldade em ouvir o outro ou esperar
Muitas pessoas só percebem que algo está errado depois que a fase passa. O prejuízo aparece no depois. Culpa, vergonha, conflitos e exaustão.
E quando o humor desce demais
No outro polo, podem surgir períodos de tristeza profunda, desânimo, vazio, lentidão emocional e perda de sentido.
Aqui, a pessoa não está apenas triste. Ela se sente sem energia para sustentar a própria rotina. Coisas simples pesam. A autocrítica aumenta. A vida parece exigir mais do que ela consegue entregar.
Essas fases podem durar dias ou semanas. E, muitas vezes, são confundidas com depressão isolada, o que dificulta um olhar mais cuidadoso para o padrão bipolar.
Por que parece não ter motivo?
Essa é uma das perguntas mais importantes.
No transtorno bipolar, o humor não depende apenas dos acontecimentos externos. Ele é fortemente influenciado por fatores internos e biológicos, além de mudanças no ritmo de vida.
Alguns elementos que costumam influenciar essas oscilações incluem:
- alterações no sono
- privação de descanso
- mudanças bruscas de rotina
- viagens com alteração de fuso horário
- exposição irregular à luz natural
- uso de substâncias
- estresse prolongado
Nem sempre a pessoa consegue fazer essa conexão sozinha. Por isso, o acompanhamento psicológico ajuda a identificar padrões que, no dia a dia, passam despercebidos.
O olhar da Terapia Cognitivo-Comportamental
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, o foco não é “domar” o humor nem forçar estabilidade. O ponto de partida é a compreensão do que está acontecendo, de como esse humor funciona e de que forma ele impacta pensamentos, escolhas e comportamentos no dia a dia.
Ao longo do processo terapêutico, a pessoa vai aprendendo a reconhecer sinais precoces de mudança de humor, muitas vezes antes que a oscilação se intensifique. Também passa a perceber como seus pensamentos se modificam em cada fase e como isso influencia atitudes, decisões e relações.
Outro aspecto importante é a construção de rotinas mais estáveis e possíveis, que não servem como rigidez, mas como sustentação emocional. A terapia ajuda ainda a reduzir comportamentos impulsivos e a desenvolver formas mais seguras de atravessar as fases difíceis, sem se machucar nem se colocar em situações que tragam arrependimento depois.
Não se trata de eliminar as oscilações, porque isso não é realista. O objetivo é diminuir a intensidade, a frequência e, principalmente, os prejuízos que essas mudanças de humor causam na vida da pessoa.
A contribuição da Terapia Comportamental Dialética
A Terapia Comportamental Dialética tem uma contribuição fundamental quando as oscilações de humor vêm acompanhadas de uma desregulação emocional mais intensa, daquela sensação de que a emoção toma conta de tudo e fica difícil pensar antes de agir.
Na DBT, o trabalho não é evitar emoções difíceis, mas aprender a atravessá-las de forma mais segura. A pessoa desenvolve recursos para lidar com picos emocionais sem agir no impulso, amplia a tolerância ao mal-estar e constrói, aos poucos, uma capacidade maior de regular as próprias emoções no dia a dia.
Outro ponto central é o fortalecimento das relações. A DBT ajuda a identificar padrões que geram conflitos, rupturas ou dependência emocional, e a desenvolver formas mais estáveis e cuidadosas de se relacionar, sem abrir mão de si.
A DBT não ensina a não sentir. Ela ensina a não se destruir quando sentir.
Quando procurar ajuda
Se o seu humor muda de forma intensa, frequente e começa a afetar sua vida pessoal, profissional ou seus relacionamentos, isso merece cuidado.
Buscar ajuda não é exagero. Não é fraqueza. É responsabilidade consigo mesmo.
A psicoterapia não serve apenas para quem já tem um diagnóstico fechado. Ela serve para quem quer entender o que está acontecendo por dentro, antes que o sofrimento se torne maior.
Uma última coisa importante
Este texto não substitui avaliação clínica nem acompanhamento psicológico. Cada pessoa vive o transtorno bipolar de forma única. Comparações costumam machucar mais do que ajudar.
Se você se identificou com partes do que leu aqui, isso não significa que você tenha um diagnóstico. Significa apenas que algo em você está pedindo atenção, escuta e cuidado. E isso, por si só, já é um passo importante.
